quinta-feira, 4 de março de 2010

Pedalando no Sul do Chile.



Olá pessoal! Meu nome é Lucas Ninno e sou um dos integrantes da equipe Bandeirantes. Fui convidado pelo meu amigo Francisco Jammal para escrever aqui sobre uma pedalada que realizei durante minha viagem ao Chile em fevereiro deste ano.

Tudo começou quando depois de 15 dias mochilando cheguei à Grande Ilha de Chiloé, a maior das ilhas de um arquipélago de mesmo nome, localizado a 1150 km da capital do país, Santiago. Na cidade de Ancud, tive a idéia de buscar um serviço de aluguel de bicicletas. Achei uma loja que alugava as magrelas por 5.000 pesos chilenos, o equivalente a mais ou menos 18 reais. Eu planejava fazer um percurso até um local chamado Pinguinera (pois se pode avistar pinguins). De acordo com os mapas que havia visto o total era de uns 40km, 20 de ida e 20 de volta. Pensei: "bem, se já pedalei 70 km até a chapada dos guimarães, 40 vai ser moleza". Doce ilusão.

Pois bem, peguei a bike - uma Giant, toda Deore, com pneus Kenda - e parti. Nos primeiros quilômetros eu fui bem tranquilo, apreciando a paisagem e parando numa das praias para tirar fotos. Pedalar ali é uma sensação muito diferente. Ainda mais por estar completamente só. Acompanhado das gaivotas, percorri toda a região de areia até chegar numa pequena bahia cheia de pedras onde reencontrei a estrada. A partir deste momento decidi pedalar pra valer. O caminho era asfaltado, mas repleto de curvas, subidas e descidas sinuosas. No Brasil é difícil encontrar este tipo de estrada. Havia momentos em que mesmo quem está de bike precisa reduzir bastante a velocidade, pois as curvas são extremamente fechadas. Quando cheguei à metade do trajeto, tive uma surpresa desagradável: a outra metade não era asfaltada. Pra piorar a minha situação, começou a chover forte. Pensei em parar, desistir, esperar a chuva passar. Mas não havia tempo, e naquele momento voltar daria tanto trabalho quanto seguir em frente. Então decidi continuar.

(trecho da estrada até a pinguinera)

Quando me aproximei da costa oeste da ilha e vi o oceano pacífico fui tomado por uma alegria muito grande. Primeiro por estar alí naquele lugar tão longe, admirando aquela beleza toda. Segundo porque o mar era um sinal de que eu estava perto do meu destino. E depois de muita lama, frio e sobe e desce, cheguei na tal pinguinera. Fiquei tempo suficiente pra tirar algumas fotos, almoçar um salmão baratíssimo (10 reais) e ver - infelizmente bem de longe - nossos amigos pinguins. Então como existia um prazo para a devolução da bike, me apressei em voltar. Acontece que mal comecei a pedalar e o tempo virou mais ainda. Agora era eu e a magrela contra uma ventania impressionante, que vinha em rajadas fortíssimas junto com chuva grossa, além das subidas que ficaram literalmente "impedaláveis". Adotei a seguinte estratégia: subir andando, descer pedalando. O problema é que isso me fez atrasar demais o percurso de retorno, e fui ficando cada vez mais cansado.

É estranho como em momentos críticos nossa capacidade de enfrentar os problemas fica maior. Se a minha casa fosse ali perto, eu já teria parado e ligado pra minha mãe. Mas como estava em outro país, numa ilha que eu mal conhecia, precisei me virar. Comecei a pedir carona para todos os carros que passavam. Tá certo que seria difícil alguém botar um ciclista encharcado e sua bike pra dentro de um carro. Passaram várias caminhonetes luxuosas e eu pensva: "pô, é só me botar na carroceria". E nessas horas você vê que há uma inversão de valores. O rico não divide o muito que tem, e o pobre mesmo não tendo quase nada, reparte o nada que tem. Foi assim que aconteceu. Quando eu já estava exausto, com as pernas bambas e muito frio, um caminhãozinho lenhador desses fabricados na china, minúsculos, parou no acostamento e sinalizou pra que eu subisse.

Sentado e esgotado na carroceria, agradeci a Deus por me safar dessa aventura mal planejada. As vezes parece que Ele nos fala: "eu vou te ajudar, mas você vai ter que se esforçar e sofrer um pouco pra aprender a não errar de novo". E alí, aliviado, abri um sorriso lembrando dos amigos do Brasil. Teria uma boa história pra contar. E de fato, cá estou eu contando para vocês.


Pra saber mais histórias sobre a viagem, fotos, etcetera e tal, acesse: www.botasdevento.com - o blog onde postei durante os 21 dias que passei no Chile.


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